Já em pré-venda no site da 7Letras: reedição 25 anos de “No shopping” com capa incrível de Amanda Miranda!
Além do texto original de No shopping (2000), esta edição traz a novela de ficção científica Penados y Rebeldes, originalmente escrita online de 2004 a 2007, e ilustrações internas de Amanda.
Sobre esta edição de No shopping: “Reler o livro hoje é também reencontrar um momento histórico específico: o breve intervalo entre o entusiasmo da virada do século e as crises que logo redefiniram o mundo. O shopping center do título aparece menos como cenário do que como metáfora de uma época em que identidades, desejos e relações humanas pareciam cada vez mais mediadas pelas vitrines e pelos mecanismos do mercado. Mas o que poderia permanecer apenas como retrato geracional ganha força pela escrita inquieta de Simone Campos, capaz de transformar crítica social em experimentação literária.
A esta nova edição soma-se Penados y Rebeldes, novela escrita poucos anos depois e publicada originalmente apenas em formato digital, sob o pseudônimo Filipa Borg. Ambientada num universo de ficção científica, a narrativa acompanha trabalhadores submetidos à rotina alienante de uma corporação espacial, ao mesmo tempo que acompanha a perseguição a uma figura insurgente que ameaça a ordem estabelecida. Se os cenários mudam, permanecem as questões centrais: a mercantilização da vida, a precarização do trabalho, os mecanismos de controle e as possibilidades de resistência.”
Capa original da edição de 2000:

Minha estreia literária foi com No Shopping, breve romance publicado pela editora 7Letras em setembro de 2000. Eu estava com 17 anos e tinha demorado um ano para escrever o livro, que tem uma linguagem experimental, com frases curtas e muitos cortes.
Jorge Viveiros de Castro, o editor, bancou a edição e apostou certo: o livro foi adotado por escolas, obteve um espaço bom na mídia e teve três tiragens.
Sinopse
Cinco adolescentes – Delia, Yuri, Juliana, Lino e Selena – circulam pelo shopping center que abriu perto de sua escola. Cada um tem uma posição na “cadeia alimentar” escolar, posição esta que pode oscilar violentamente de um dia pro outro. Seus encontros e desencontros funcionam como metáforas para as relações entre poderes dentro do capitalismo.
trecho do livro
Delia entrou no templo, contrita. Examinou os grandes vitrais coloridos, límpidos, e suspirou à vista das imagens gloriosas. Havia uma música suave no ar.
Pessoas saíam, já tendo contribuído financeiramente para a obra. Caminhou até descobrir onde é que confessaria seu pecado capital: a Gula.
– Um de baunilha com chocolate.
– Oitenta centavos.
(herege!)
Escoltada por um segurança, passou pelo saguão onde costumava subir. Só que desceu, chegando ao submundo.
Bafo tirânico do verão; ali não havia ar-condicionado.
Desceram uma escada rolante.
Desceram outra escada rolante.
Subsolo 2. Uma fonte horrenda, remanescente dos anos 80, não funcionando, sob a escada. Parte coberta de uns ladrilhos minúsculos, verdes. Faltavam muitos, caídos.
– João? O telefone já tá funcionando? Ainda não… vamos ter que descer mais, garota.
– Take me down… baby… – cantarolou Delia, fechando os olhos em total virtuosismo cínico.
Se você está interessado em saber, ele não pensou em nada. Delia pensa demais.
Escada de cimento. Degraus tortos. Cheiro de lixo. Mais calor. Fluxo de empregados e máquinas. Entravam. Saíam.
Atravessaram um pátio cimentado. Delia não resistiu:
– Então é assim embaixo do Shopping… moço?